Habituação é um inescapável comportamento cerebral. Daí resulta rotina. Rotina é inconsciente cognitivo – essa maravilha que libera a mente para atender o novo a cada dia. O cotidiano é a resultante: presente liberado para todas as construções futuras.
(II)
Cotidianos fazem as coisas acontecerem: são as bases de lançamento de tudo que ainda não existe. Têm um poder gerador semelhante ao da linguagem: manipulam e recombinam elementos conhecidos para construir novos cenários, e personagens, e diálogos, e histórias, e modos de caminhar pelo mundo. Quem o percebe pode dizer: presente.
(III)
O ponto cego da habituação, no entanto, impede-nos de ver que todo dia ninguém faz nada nunca igual. A surpresa do íntimo é um dom de amor. É preciso receber a graça de perceber a ínfima variabilidade do íntimo para apreciar o movimento cotidiano da mudança, e a estabilidade do que passa.
(IV)
Imperativo de viver é bordar cotidianos com linhas de destinação. Tal bordado-padrão é, entretanto, pronto a aberturas no passo a passo das agulhas. Mas é preciso visão de dia a dia para acolher desmedidas.
(V)
Tenho pena de a quem cotidianos não sabem gosto.
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